Por vários motivos as denominações evangélicas adotam determinada versão do texto bíblico como “oficial” para os seus atos litúrgicos e fins doutrinários. Nas Assembleias de Deus do Brasil, essa versão é a Almeida Revista e Corrigida (ARC), e pelo que tudo indica ainda se mantém assim em razão do “costume” com o referido texto.
Diante da adoção de uma versão oficial, o que me assusta, é a quantidade de obreiros e demais membros em geral, que nunca se perguntaram ou questionaram sobre a razão de tal escolha, e mais, nunca compararam a ARC com outras versões, nem tampouco, ao perceberem divergências textuais com outras versões, não foram adiante para entender a razão de tais divergências, e se isso de alguma forma afetava questões de ordem doutrinária e teológica.
Quando se analisa criticamente e seriamente determinada versão da Bíblia, a referida versão se fortalece como o “melhor texto”, ou se percebe a necessidade de adotar em seu lugar uma versão mais fiel aos originais, ou ainda chega-se a conclusão de que se pode ter esta ou aquela versão no mesmo nível de confiabilidade em relação aos manuscritos originais, e consequentemente com a melhor fidelidade possível aos autógrafos (textos produzidos pelas mãos dos escritores bíblicos).
Nossa proposta se relaciona com o interesse de buscar o melhor texto (ou melhores textos) para a atualidade, partindo da análise comparativa entre os principais textos críticos utilizados para tradução do Novo Testamento na atualidade (Textus Receptus e Texto Crítico), analisando alguns casos nas traduções e versões para a língua portuguesa, com ênfase na ARC e ARA.
1º CASO – Mateus 17.21
τοῦτο δὲ τὸ γένος οὐκ ἐκπορεύεται εἰ μὴ ἐν προσευχῇ καὶ νηστείᾳ (Textus Receptus, Stephanus)
Mas esta casta de demônios não se expulsa senão pela oração e pelo jejum. (ARC)
[Mas esta casta não se expele senão por meio de oração e jejum.] (ARA)
ANÁLISE DO TEXTO GREGO
O Novo Testamento Grego (4ª Ed.), que em sua apresentação informa que: “Hoje, pode-se afirmar que, a menos que se descubram novos manuscritos, o estudo do texto do Novo Testamento Grego está concluído. E os resultados desse trabalho aparecem na edição que o leitor tem, agora, em mãos.”[1], omite o texto do versículo 21, que aparece no Textus Receptus, conforme acima transcrito.
Por essa razão, a ARA coloca o texto entre parêntesis, indicando que o mesmo não fazia parte dos manuscritos gregos, visto que tal versão toma como base o Novo Testamento Grego, enquanto a ARC traduz normalmente, pois tal versão teve o Textus Receptus como base.
Kurt e Barbara Aland, afirmam que devido ao prestígio e significado do jejum na Igreja antiga, e também no período monástico de toda a idade Média, a leitura mais breve (com a omissão) não teve tanto apoio, mas que a ausência do v. 21, isto é, a sua não pertença ao texto original de Mateus é mais do que suficientemente comprovada em diversos manuscritos, e que se esse texto tão popular tivesse constado do original, ninguém teria ousado omiti-lo.[2]
Mateus 17.21 teria sido a reprodução posterior de Marcos 9.29, que também, por sua vez, teria sofrido o acréscimo posterior do termo “e jejum”. Verifique que na ARA a palavra “e jejum” aparece entre colchetes no final de Marcos 9.29. A ARC não faz observação alguma.
Sobre a passagem de Mateu 17.21, Omanson comenta:
Não existe razão suficiente que poderia ter levado copistas a omitir esse versículo numa variedade tão grande de manuscritos, caso fosse, originalmente, parte do texto de Mateus. Com frequência, copistas inseriam num Evangelho material que se encontra em outro. Neste caso, parece que o acréscimo de “Mas esse tipo não sai senão por meio de oração e jejum”, que aparece na maioria dos manuscritos, foi tirado do paralelo em Mc 9.29.[3]
ANÁLISE TEOLÓGICA
Passaremos a citar a posição de teólogos e comentarista bíblicos sobre o texto em questão.
O teólogo alemão Rienecker, em seu comentário do evangelho de Mateus, reconhece o fato do v. 21 não constar no texto original editado por Nestle, omitindo assim qualquer comentário sobre o texto.[4]
D. A. Carson, Ph.D. pela Universade de Cambrige, e professor de Novo Testamento na Trinity Evangelical Divinity School, Deerfiel, Ilinois, EUA, comenta que o texto do v. 21 se trata de:
[...] informação omitida por uma poderosa combinação de testemunhos. É obviamente uma assimilação do paralelo sinótico de Marcos 9.29. Não motivo evidente de por que, se ela for original, devia ser omitida; e a harmonização textual é, de forma bem demonstrável, um processo secundário.[5]
O Comentário Bíblico de Moody, editado por Pfeiffer e Harrison, diz que “O versículo 21 foi omitido nos melhores manuscritos, sendo uma interpolação de Mc. 9.29”.[6]
Champlin, em seu comentário, destaca não haver razão para a passagem do v. 21 ter sido omitida, caso a mesma estivesse presente originalmente em Mateus, e considerando que os copistas com frequência inseriam material derivado de outro evangelho, parece que na maioria dos manuscritos foi assimilada do paralelo de Marcos 9.29.[7]
David H. Stern, judeu messiânico e erudito bíblico, diz que “Os manuscritos que acrescentaram o v. 21 provavelmente o pegaram emprestado de Marcos 9.29.”[8]
Samuel Pérez Millos, Mestre em teologia pelo Instituto Bíblico Evangélico a Espanha, comenta:
Este versículo não aparece nos mais confiáveis manuscritos, mas somente em códices de pouca confiança. Com toda certeza foi copiado de Marcos 9.29, sendo também que ali encontramos “jejum”, que inicialmente não estava nos manuscritos.[9] (tradução do autor)
As obras “Comentário Bíblico Africano” (Mundo Cristão), “Comentário al Nuevo Testamento de William Barclay” (Editora Clie) e “Vincent: estudos no vocabulário grego do Novo Testamento” (CPAD), não trazem nenhuma observação ou comentário sobre o referido versículo.
Robertson, cujo comentário de Mateus e Marcos foi publicado pela Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD), e aprovado pelo Conselho de Doutrina da CGADB, não comenta Mateus 17.21, mas, em se tratando de Marcos 9.29 diz:
Esta casta não pode sair com coisa alguma, a não ser com oração (Τοῦτο τὸ γένος ἐν οὐδενὶ δύναται ἐξελθεῖν εἰ μὴ ἐν προσευχῇ). A adição de “e jejum” não aparece nos dois manuscritos gregos mais antigos (א e B). É claramente uma adição recente para ajudar a explicar o fracasso dos nove discípulos. Mas é desnecessária e também infiel. Foi a oração que os nove discípulos não fizeram. Não tiveram poder, porque não tinham oração.[10]
Conforme Robertson, o “e jejum” de Marcos 9.29 (Καὶ νηστείᾳ), não nos oferece bases sólidas para construirmos uma doutrina sobre a relação do jejum com a expulsão de demônios.
ANÁLISE PRÁTICA
Diante das questões aqui comentadas, como devem se posicionar os que ensinam e pregam o Novo Testamento, diante dos textos de Mateus 17.21 e Marcos 9.29? Entendo que, partindo do pressuposto de que o texto do Novo Testamento Grego é o mais confiável na atualidade (até que novas descobertas provem o contrário), e sendo a base da versão Almeida Revista e Atualizada (ARA), incorrem num risco maior de se distanciarem dos originais, os que tomam a versão Almeida Revista e Corrigida, e com base nela, e nos referidos textos, elaboram doutrinas, ensinos e pregações.
Mateus 17.21 deve ser evitado, enquanto em Marcos 9.29, para discorrer sobre o poder de expulsar demônios, a ênfase deve ser dada à oração.
Como continuaremos a observar nas próximas análises comparativas entre as versões ARC e ARA, tendo como base as atuais evidências científicas (e até que novas e melhores descobertas surjam), não recomendo a utilização de textos comprovadamente duvidosos no ensino e na pregação do Novo Testamento.
[1] O Novo Testamento Grego: com introdução em português e dicionário grego-português. Barueri-SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2009.
[2] ALAND, Kurt; ALAND, Barbara. O texto do Novo Testamento: introdução às edições científicas do Novo Testamento Grego bem como à teoria e prática da moderna crítica textual. Barueri-SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2013, p. 310.
[3] OMANSON, Roger L. Variantes textuais do Novo Testamento: análise e avaliação do aparato crítico de “O Novo Testamento Grego”. Barueri-SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2010, p. 27.
[4] RIENECKER, Fritz. O Evangelho de Mateus: comentário esperança. Curitiba-PR: Editora Evangélica Esperança, 1998, p. 306.
[5] CARSON, D. A. O comentário de Mateus. São Paulo: Shedd Publicações, 2010, p. 459.
[6] PFEIFFER, Charles F.; HARRISON, Everet (Ed.). Comentário Bíblico Moody: os Evangelhos e Atos. São Paulo: Imprensa Batista Regular, 1987, p. 43.
[7] CHAMPLIN, R.N. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo: São Paulo: Hagnos, 2002, p. 459, v. 1.
[8] STERN, David H. Comentário Judaico do Novo Testamento. Editora Atos, 2008, p. 82.
[9] MILLOS, Samuel Pérez. Comentário Exegético al texto griego del Nuelvo testamento: Mateo. Barcelona, Espanha: Editora Clie, 2009, p. 1179.
[10] ROBERTSON, A. T. Comentário Mateus & Marcos: à luz do Novo Testamento Grego. Rio de Janeiro: CPAD, 2012, p. 459.
Este blog é destinado a todos que amam A infalível, Inerrante e Genuína Palavra de Deus. Aqui você vai encontrar reportagens, mensagens bíblica expositivas, noticias, vídeos, reflexões, artigos, subsídio da escola bíblica dominical...tudo isso como intuito de edificar sua fé. "...Andamos por fé e não por vista ! (2 Co 5.7) ".
sábado, 7 de junho de 2014
ANÁLISE CRÍTICA E COMPARATIVA DE ALGUMAS VARIAÇÕES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO NAS VERSÕES ALMEIDA REVISTA E CORRIGIDA (ARC) E ALMEIDA REVISTA E ATUALIZADA (ARA) - MATEUS 17.21
Por vários motivos as denominações evangélicas adotam determinada versão do texto bíblico como “oficial” para os seus atos litúrgicos e fins doutrinários. Nas Assembleias de Deus do Brasil, essa versão é a Almeida Revista e Corrigida (ARC), e pelo que tudo indica ainda se mantém assim em razão do “costume” com o referido texto.
Diante da adoção de uma versão oficial, o que me assusta, é a quantidade de obreiros e demais membros em geral, que nunca se perguntaram ou questionaram sobre a razão de tal escolha, e mais, nunca compararam a ARC com outras versões, nem tampouco, ao perceberem divergências textuais com outras versões, não foram adiante para entender a razão de tais divergências, e se isso de alguma forma afetava questões de ordem doutrinária e teológica.
Quando se analisa criticamente e seriamente determinada versão da Bíblia, a referida versão se fortalece como o “melhor texto”, ou se percebe a necessidade de adotar em seu lugar uma versão mais fiel aos originais, ou ainda chega-se a conclusão de que se pode ter esta ou aquela versão no mesmo nível de confiabilidade em relação aos manuscritos originais, e consequentemente com a melhor fidelidade possível aos autógrafos (textos produzidos pelas mãos dos escritores bíblicos).
Nossa proposta se relaciona com o interesse de buscar o melhor texto (ou melhores textos) para a atualidade, partindo da análise comparativa entre os principais textos críticos utilizados para tradução do Novo Testamento na atualidade (Textus Receptus e Texto Crítico), analisando alguns casos nas traduções e versões para a língua portuguesa, com ênfase na ARC e ARA.
1º CASO – Mateus 17.21
τοῦτο δὲ τὸ γένος οὐκ ἐκπορεύεται εἰ μὴ ἐν προσευχῇ καὶ νηστείᾳ (Textus Receptus, Stephanus)
Mas esta casta de demônios não se expulsa senão pela oração e pelo jejum. (ARC)
[Mas esta casta não se expele senão por meio de oração e jejum.] (ARA)
ANÁLISE DO TEXTO GREGO
O Novo Testamento Grego (4ª Ed.), que em sua apresentação informa que: “Hoje, pode-se afirmar que, a menos que se descubram novos manuscritos, o estudo do texto do Novo Testamento Grego está concluído. E os resultados desse trabalho aparecem na edição que o leitor tem, agora, em mãos.”[1], omite o texto do versículo 21, que aparece no Textus Receptus, conforme acima transcrito.
Por essa razão, a ARA coloca o texto entre parêntesis, indicando que o mesmo não fazia parte dos manuscritos gregos, visto que tal versão toma como base o Novo Testamento Grego, enquanto a ARC traduz normalmente, pois tal versão teve o Textus Receptus como base.
Kurt e Barbara Aland, afirmam que devido ao prestígio e significado do jejum na Igreja antiga, e também no período monástico de toda a idade Média, a leitura mais breve (com a omissão) não teve tanto apoio, mas que a ausência do v. 21, isto é, a sua não pertença ao texto original de Mateus é mais do que suficientemente comprovada em diversos manuscritos, e que se esse texto tão popular tivesse constado do original, ninguém teria ousado omiti-lo.[2]
Mateus 17.21 teria sido a reprodução posterior de Marcos 9.29, que também, por sua vez, teria sofrido o acréscimo posterior do termo “e jejum”. Verifique que na ARA a palavra “e jejum” aparece entre colchetes no final de Marcos 9.29. A ARC não faz observação alguma.
Sobre a passagem de Mateu 17.21, Omanson comenta:
Não existe razão suficiente que poderia ter levado copistas a omitir esse versículo numa variedade tão grande de manuscritos, caso fosse, originalmente, parte do texto de Mateus. Com frequência, copistas inseriam num Evangelho material que se encontra em outro. Neste caso, parece que o acréscimo de “Mas esse tipo não sai senão por meio de oração e jejum”, que aparece na maioria dos manuscritos, foi tirado do paralelo em Mc 9.29.[3]
ANÁLISE TEOLÓGICA
Passaremos a citar a posição de teólogos e comentarista bíblicos sobre o texto em questão.
O teólogo alemão Rienecker, em seu comentário do evangelho de Mateus, reconhece o fato do v. 21 não constar no texto original editado por Nestle, omitindo assim qualquer comentário sobre o texto.[4]
D. A. Carson, Ph.D. pela Universade de Cambrige, e professor de Novo Testamento na Trinity Evangelical Divinity School, Deerfiel, Ilinois, EUA, comenta que o texto do v. 21 se trata de:
[...] informação omitida por uma poderosa combinação de testemunhos. É obviamente uma assimilação do paralelo sinótico de Marcos 9.29. Não motivo evidente de por que, se ela for original, devia ser omitida; e a harmonização textual é, de forma bem demonstrável, um processo secundário.[5]
O Comentário Bíblico de Moody, editado por Pfeiffer e Harrison, diz que “O versículo 21 foi omitido nos melhores manuscritos, sendo uma interpolação de Mc. 9.29”.[6]
Champlin, em seu comentário, destaca não haver razão para a passagem do v. 21 ter sido omitida, caso a mesma estivesse presente originalmente em Mateus, e considerando que os copistas com frequência inseriam material derivado de outro evangelho, parece que na maioria dos manuscritos foi assimilada do paralelo de Marcos 9.29.[7]
David H. Stern, judeu messiânico e erudito bíblico, diz que “Os manuscritos que acrescentaram o v. 21 provavelmente o pegaram emprestado de Marcos 9.29.”[8]
Samuel Pérez Millos, Mestre em teologia pelo Instituto Bíblico Evangélico a Espanha, comenta:
Este versículo não aparece nos mais confiáveis manuscritos, mas somente em códices de pouca confiança. Com toda certeza foi copiado de Marcos 9.29, sendo também que ali encontramos “jejum”, que inicialmente não estava nos manuscritos.[9] (tradução do autor)
As obras “Comentário Bíblico Africano” (Mundo Cristão), “Comentário al Nuevo Testamento de William Barclay” (Editora Clie) e “Vincent: estudos no vocabulário grego do Novo Testamento” (CPAD), não trazem nenhuma observação ou comentário sobre o referido versículo.
Robertson, cujo comentário de Mateus e Marcos foi publicado pela Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD), e aprovado pelo Conselho de Doutrina da CGADB, não comenta Mateus 17.21, mas, em se tratando de Marcos 9.29 diz:
Esta casta não pode sair com coisa alguma, a não ser com oração (Τοῦτο τὸ γένος ἐν οὐδενὶ δύναται ἐξελθεῖν εἰ μὴ ἐν προσευχῇ). A adição de “e jejum” não aparece nos dois manuscritos gregos mais antigos (א e B). É claramente uma adição recente para ajudar a explicar o fracasso dos nove discípulos. Mas é desnecessária e também infiel. Foi a oração que os nove discípulos não fizeram. Não tiveram poder, porque não tinham oração.[10]
Conforme Robertson, o “e jejum” de Marcos 9.29 (Καὶ νηστείᾳ), não nos oferece bases sólidas para construirmos uma doutrina sobre a relação do jejum com a expulsão de demônios.
ANÁLISE PRÁTICA
Diante das questões aqui comentadas, como devem se posicionar os que ensinam e pregam o Novo Testamento, diante dos textos de Mateus 17.21 e Marcos 9.29? Entendo que, partindo do pressuposto de que o texto do Novo Testamento Grego é o mais confiável na atualidade (até que novas descobertas provem o contrário), e sendo a base da versão Almeida Revista e Atualizada (ARA), incorrem num risco maior de se distanciarem dos originais, os que tomam a versão Almeida Revista e Corrigida, e com base nela, e nos referidos textos, elaboram doutrinas, ensinos e pregações.
Mateus 17.21 deve ser evitado, enquanto em Marcos 9.29, para discorrer sobre o poder de expulsar demônios, a ênfase deve ser dada à oração.
Como continuaremos a observar nas próximas análises comparativas entre as versões ARC e ARA, tendo como base as atuais evidências científicas (e até que novas e melhores descobertas surjam), não recomendo a utilização de textos comprovadamente duvidosos no ensino e na pregação do Novo Testamento.
[1] O Novo Testamento Grego: com introdução em português e dicionário grego-português. Barueri-SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2009.
[2] ALAND, Kurt; ALAND, Barbara. O texto do Novo Testamento: introdução às edições científicas do Novo Testamento Grego bem como à teoria e prática da moderna crítica textual. Barueri-SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2013, p. 310.
[3] OMANSON, Roger L. Variantes textuais do Novo Testamento: análise e avaliação do aparato crítico de “O Novo Testamento Grego”. Barueri-SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2010, p. 27.
[4] RIENECKER, Fritz. O Evangelho de Mateus: comentário esperança. Curitiba-PR: Editora Evangélica Esperança, 1998, p. 306.
[5] CARSON, D. A. O comentário de Mateus. São Paulo: Shedd Publicações, 2010, p. 459.
[6] PFEIFFER, Charles F.; HARRISON, Everet (Ed.). Comentário Bíblico Moody: os Evangelhos e Atos. São Paulo: Imprensa Batista Regular, 1987, p. 43.
[7] CHAMPLIN, R.N. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo: São Paulo: Hagnos, 2002, p. 459, v. 1.
[8] STERN, David H. Comentário Judaico do Novo Testamento. Editora Atos, 2008, p. 82.
[9] MILLOS, Samuel Pérez. Comentário Exegético al texto griego del Nuelvo testamento: Mateo. Barcelona, Espanha: Editora Clie, 2009, p. 1179.
[10] ROBERTSON, A. T. Comentário Mateus & Marcos: à luz do Novo Testamento Grego. Rio de Janeiro: CPAD, 2012, p. 459.
Por vários motivos as denominações evangélicas adotam determinada versão do texto bíblico como “oficial” para os seus atos litúrgicos e fins doutrinários. Nas Assembleias de Deus do Brasil, essa versão é a Almeida Revista e Corrigida (ARC), e pelo que tudo indica ainda se mantém assim em razão do “costume” com o referido texto.
Diante da adoção de uma versão oficial, o que me assusta, é a quantidade de obreiros e demais membros em geral, que nunca se perguntaram ou questionaram sobre a razão de tal escolha, e mais, nunca compararam a ARC com outras versões, nem tampouco, ao perceberem divergências textuais com outras versões, não foram adiante para entender a razão de tais divergências, e se isso de alguma forma afetava questões de ordem doutrinária e teológica.
Quando se analisa criticamente e seriamente determinada versão da Bíblia, a referida versão se fortalece como o “melhor texto”, ou se percebe a necessidade de adotar em seu lugar uma versão mais fiel aos originais, ou ainda chega-se a conclusão de que se pode ter esta ou aquela versão no mesmo nível de confiabilidade em relação aos manuscritos originais, e consequentemente com a melhor fidelidade possível aos autógrafos (textos produzidos pelas mãos dos escritores bíblicos).
Nossa proposta se relaciona com o interesse de buscar o melhor texto (ou melhores textos) para a atualidade, partindo da análise comparativa entre os principais textos críticos utilizados para tradução do Novo Testamento na atualidade (Textus Receptus e Texto Crítico), analisando alguns casos nas traduções e versões para a língua portuguesa, com ênfase na ARC e ARA.
1º CASO – Mateus 17.21
τοῦτο δὲ τὸ γένος οὐκ ἐκπορεύεται εἰ μὴ ἐν προσευχῇ καὶ νηστείᾳ (Textus Receptus, Stephanus)
Mas esta casta de demônios não se expulsa senão pela oração e pelo jejum. (ARC)
[Mas esta casta não se expele senão por meio de oração e jejum.] (ARA)
ANÁLISE DO TEXTO GREGO
O Novo Testamento Grego (4ª Ed.), que em sua apresentação informa que: “Hoje, pode-se afirmar que, a menos que se descubram novos manuscritos, o estudo do texto do Novo Testamento Grego está concluído. E os resultados desse trabalho aparecem na edição que o leitor tem, agora, em mãos.”[1], omite o texto do versículo 21, que aparece no Textus Receptus, conforme acima transcrito.
Por essa razão, a ARA coloca o texto entre parêntesis, indicando que o mesmo não fazia parte dos manuscritos gregos, visto que tal versão toma como base o Novo Testamento Grego, enquanto a ARC traduz normalmente, pois tal versão teve o Textus Receptus como base.
Kurt e Barbara Aland, afirmam que devido ao prestígio e significado do jejum na Igreja antiga, e também no período monástico de toda a idade Média, a leitura mais breve (com a omissão) não teve tanto apoio, mas que a ausência do v. 21, isto é, a sua não pertença ao texto original de Mateus é mais do que suficientemente comprovada em diversos manuscritos, e que se esse texto tão popular tivesse constado do original, ninguém teria ousado omiti-lo.[2]
Mateus 17.21 teria sido a reprodução posterior de Marcos 9.29, que também, por sua vez, teria sofrido o acréscimo posterior do termo “e jejum”. Verifique que na ARA a palavra “e jejum” aparece entre colchetes no final de Marcos 9.29. A ARC não faz observação alguma.
Sobre a passagem de Mateu 17.21, Omanson comenta:
Não existe razão suficiente que poderia ter levado copistas a omitir esse versículo numa variedade tão grande de manuscritos, caso fosse, originalmente, parte do texto de Mateus. Com frequência, copistas inseriam num Evangelho material que se encontra em outro. Neste caso, parece que o acréscimo de “Mas esse tipo não sai senão por meio de oração e jejum”, que aparece na maioria dos manuscritos, foi tirado do paralelo em Mc 9.29.[3]
ANÁLISE TEOLÓGICA
Passaremos a citar a posição de teólogos e comentarista bíblicos sobre o texto em questão.
O teólogo alemão Rienecker, em seu comentário do evangelho de Mateus, reconhece o fato do v. 21 não constar no texto original editado por Nestle, omitindo assim qualquer comentário sobre o texto.[4]
D. A. Carson, Ph.D. pela Universade de Cambrige, e professor de Novo Testamento na Trinity Evangelical Divinity School, Deerfiel, Ilinois, EUA, comenta que o texto do v. 21 se trata de:
[...] informação omitida por uma poderosa combinação de testemunhos. É obviamente uma assimilação do paralelo sinótico de Marcos 9.29. Não motivo evidente de por que, se ela for original, devia ser omitida; e a harmonização textual é, de forma bem demonstrável, um processo secundário.[5]
O Comentário Bíblico de Moody, editado por Pfeiffer e Harrison, diz que “O versículo 21 foi omitido nos melhores manuscritos, sendo uma interpolação de Mc. 9.29”.[6]
Champlin, em seu comentário, destaca não haver razão para a passagem do v. 21 ter sido omitida, caso a mesma estivesse presente originalmente em Mateus, e considerando que os copistas com frequência inseriam material derivado de outro evangelho, parece que na maioria dos manuscritos foi assimilada do paralelo de Marcos 9.29.[7]
David H. Stern, judeu messiânico e erudito bíblico, diz que “Os manuscritos que acrescentaram o v. 21 provavelmente o pegaram emprestado de Marcos 9.29.”[8]
Samuel Pérez Millos, Mestre em teologia pelo Instituto Bíblico Evangélico a Espanha, comenta:
Este versículo não aparece nos mais confiáveis manuscritos, mas somente em códices de pouca confiança. Com toda certeza foi copiado de Marcos 9.29, sendo também que ali encontramos “jejum”, que inicialmente não estava nos manuscritos.[9] (tradução do autor)
As obras “Comentário Bíblico Africano” (Mundo Cristão), “Comentário al Nuevo Testamento de William Barclay” (Editora Clie) e “Vincent: estudos no vocabulário grego do Novo Testamento” (CPAD), não trazem nenhuma observação ou comentário sobre o referido versículo.
Robertson, cujo comentário de Mateus e Marcos foi publicado pela Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD), e aprovado pelo Conselho de Doutrina da CGADB, não comenta Mateus 17.21, mas, em se tratando de Marcos 9.29 diz:
Esta casta não pode sair com coisa alguma, a não ser com oração (Τοῦτο τὸ γένος ἐν οὐδενὶ δύναται ἐξελθεῖν εἰ μὴ ἐν προσευχῇ). A adição de “e jejum” não aparece nos dois manuscritos gregos mais antigos (א e B). É claramente uma adição recente para ajudar a explicar o fracasso dos nove discípulos. Mas é desnecessária e também infiel. Foi a oração que os nove discípulos não fizeram. Não tiveram poder, porque não tinham oração.[10]
Conforme Robertson, o “e jejum” de Marcos 9.29 (Καὶ νηστείᾳ), não nos oferece bases sólidas para construirmos uma doutrina sobre a relação do jejum com a expulsão de demônios.
ANÁLISE PRÁTICA
Diante das questões aqui comentadas, como devem se posicionar os que ensinam e pregam o Novo Testamento, diante dos textos de Mateus 17.21 e Marcos 9.29? Entendo que, partindo do pressuposto de que o texto do Novo Testamento Grego é o mais confiável na atualidade (até que novas descobertas provem o contrário), e sendo a base da versão Almeida Revista e Atualizada (ARA), incorrem num risco maior de se distanciarem dos originais, os que tomam a versão Almeida Revista e Corrigida, e com base nela, e nos referidos textos, elaboram doutrinas, ensinos e pregações.
Mateus 17.21 deve ser evitado, enquanto em Marcos 9.29, para discorrer sobre o poder de expulsar demônios, a ênfase deve ser dada à oração.
Como continuaremos a observar nas próximas análises comparativas entre as versões ARC e ARA, tendo como base as atuais evidências científicas (e até que novas e melhores descobertas surjam), não recomendo a utilização de textos comprovadamente duvidosos no ensino e na pregação do Novo Testamento.
[1] O Novo Testamento Grego: com introdução em português e dicionário grego-português. Barueri-SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2009.
[2] ALAND, Kurt; ALAND, Barbara. O texto do Novo Testamento: introdução às edições científicas do Novo Testamento Grego bem como à teoria e prática da moderna crítica textual. Barueri-SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2013, p. 310.
[3] OMANSON, Roger L. Variantes textuais do Novo Testamento: análise e avaliação do aparato crítico de “O Novo Testamento Grego”. Barueri-SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2010, p. 27.
[4] RIENECKER, Fritz. O Evangelho de Mateus: comentário esperança. Curitiba-PR: Editora Evangélica Esperança, 1998, p. 306.
[5] CARSON, D. A. O comentário de Mateus. São Paulo: Shedd Publicações, 2010, p. 459.
[6] PFEIFFER, Charles F.; HARRISON, Everet (Ed.). Comentário Bíblico Moody: os Evangelhos e Atos. São Paulo: Imprensa Batista Regular, 1987, p. 43.
[7] CHAMPLIN, R.N. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo: São Paulo: Hagnos, 2002, p. 459, v. 1.
[8] STERN, David H. Comentário Judaico do Novo Testamento. Editora Atos, 2008, p. 82.
[9] MILLOS, Samuel Pérez. Comentário Exegético al texto griego del Nuelvo testamento: Mateo. Barcelona, Espanha: Editora Clie, 2009, p. 1179.
[10] ROBERTSON, A. T. Comentário Mateus & Marcos: à luz do Novo Testamento Grego. Rio de Janeiro: CPAD, 2012, p. 459.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário